Como devemos ler a bíblia?

26 novembro, 2009

como ler a Biblia

Como ler a Bíblia

A Bíblia é um livro complexo e passível de muitas interpretações errôneas (2 Pe 3,16), para evitar esse perigo devemos seguir algumas orientações básicas. Antes de tudo é preciso diferenciar a simples leitura da Bíblia de sua compreensão e de sua interpretação, pois a falta desta distinção tem dado origem a muitos equívocos e a criação de inúmeras seitas.

A leitura é um processo que tem como condição necessária o entendimento básico da língua que se fala e suas funções gramaticais para não confundirmos o uso e o sentido das palavras. Ler a Bíblia é diferente de ouvi-la, pois como sabemos a leitura nos tempos bíblicos era um privilégio de poucos (em geral sacerdotes), já a “escuta da Palavra” era algo acessível à maioria das pessoas no templo. Como podemos conferir em alguns textos bíblicos, há uma ênfase maior na pregação da Palavra (kerigma) do que na sua leitura, uma vez que esta última diz respeito a um cuidado maior ao entendê-la e interpretá-la.

Entender e explicar a Bíblia requer uma série de informações que permitam uma compreensão ampla, tais como, noções da língua em que foi escrito o texto em questão (em geral os textos foram escritos em hebraico, aramaico ou grego), as circunstâncias históricas, políticas e sociais da época (a Bíblia é um conjunto de livros que foram escritos há aproximadamente três mil anos atrás, o Pentateuco, por exemplo, é datado por alguns estudiosos do séc.VI a.C.), também é fundamental ter noções de cultura judaica e grega, dos gêneros literários (cartas, apocalipses, evangelhos, hinos, salmos, etc.), informações sobre o autor do texto, o estilo, os destinatários e a intenção por trás do texto, tudo isso é imprescindível para sua correta compreensão.

Uma vez lido o texto e compreendido seu conteúdo é necessário sua interpretação, isto é, aplicá-lo à nossa realidade para captar sua atualidade em relação aos problemas vivenciados pela Igreja de hoje, com isso pode-se avaliar qual atitude devemos tomar diante dos desafios atuais. Segundo o Catecismo da Igreja Católica (parágrafo 112) devem-se seguir três critérios na interpretação da Sagrada Escritura: 1. Prestar atenção ao conteúdo e a unidade da Sagrada Escritura toda; 2. Ler a Escritura dentro da tradição viva da Igreja; 3. Estar atento à analogia da fé.

“A Palavra de Deus deve ser lida e interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que levou à sua redação”, assim afirmam os bispos no documento Dei Verbum (12,3) do Concilio Vaticano II. Mas alguém poderá perguntar: Em qual Espírito foi escrita a Bíblia? O Espírito que preside a Palavra de Deus é um Espírito de comunhão e unidade, ou seja, comunitário (1 Cor. caps.12 e 13), nele não há divisão nem confusão.

Os judeus liam e ouviam as Escrituras Sagradas (Tanak), mas desconheciam seu verdadeiro conteúdo, Jesus Cristo. Jesus apresenta-as como testemunho Dele (Jo 5,39) e explica-as aos seus discípulos (Lc 24,25). Uma vez instruídos seus discípulos, Jesus os faz apóstolos e lhes dá a autoridade de pregar (“Quem vos ouve a mim ouve” Lucas 10, 16) e ensinar (Ide, portanto, fazei discípulos meus… ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei. Mt 28,19). Esta autoridade para ensinar e interpretar as Escrituras foi dada aos Doze, não a qualquer um.

Como também nos adverte ainda o apóstolo Pedro: “antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular” (2 Pe 1, 20). Esta interpretação particular das Escrituras foi o responsável pela Babel (confusão) de seitas que têm surgido desde o século XV até hoje, cada uma usando a Bíblia segundo seus ?interesses particulares? (poder, dinheiro, fama) e nenhuma concordando com as outras, mesmo nas coisas mais fundamentais, tais como regras de agir, de vestir, forma de celebrar, dia de celebração, forma de adorar, de se relacionar com as pessoas, etc. Muitas destas seitas omitem certas passagens bíblicas que não as favorecem e usam apenas as que parecem confirmar suas ideias (em geral muitas delas usadas fora de seu contexto literário e histórico).

A interpretação é uma tarefa árdua que compete apenas ao Magistério da Igreja (Catecismo, parágrafo 85), uma vez que os estudos a respeito da arqueologia, história, cultura, língua, costumes do povo da época em que foi escrita a Bíblia, não são acessíveis a maior parte da população. Já conhecemos suficientemente o resultado das interpretações particulares das Sagradas Escrituras: confusões doutrinárias, divisão na Igreja, sectarismos, preconceitos religiosos, conflitos e guerras religiosas. Tudo isso em nome da “verdade”. Por essas razões leiamos a Bíblia, mas tenhamos cuidado para não cairmos na tentação de querer entendê-la segundo nossas conveniências e nossos preconceitos, mas de acordo com aquilo que foi confiado a comunidade de fé.